A paralaxe do conhecimento: do ensinar ao Aprender

O mundo é governado menos por leis rígidas que pelo acaso. Além do mais, as incertezas não são apenas resultado da nossa ignorância das condições iniciais, conforme se pensou já, mas uma propriedade inerente à matéria (Davies, 1987).

Paralaxe é o deslocamento aparente de um objeto causado pela mudança do ponto de observação que permite nova linha de visão (Žižek, 2008). Parece simples, não? Mas, se eu pensar que quando observo o objeto também sou observado por ele, significa que existe paralaxe, também, do objeto, que passa a ser observador de mim. Pensar desta maneira me transforma em objeto, o que vai tornar este processo de percepção um tanto mais complexo, pois o que se estabelece como verdade é a relação de correspondência concretizada: observador-observado, tornando bem mais incerto estabelecer o que verdade é. Ademais, se a realidade é criada pelo observador, qual é o parâmetro para a correspondência neste exemplo que estou trazendo?

Toda produção de conhecimento se realiza nesta dinâmica relação de projeções de realidades individuais pressupondo que é necessário conhecer os códigos de acesso da comunicação para interpretar o objeto e realizar a própria projeção. Para isto temos que ser apresentados a várias formas de comunicação, e não só da linguagem verbal-escrita, para podermos desenvolver nossa capacidade de comunicação, ou seja, sermos hábeis com as linguagens. Somente deste modo será possível desvelar, descobrir, ou melhor, compartilhar uma realidade.

Pöppel (1989) afirma que nossa percepção da realidade dura aproximadamente 3 segundos localizando temporalmente nossa dimensão de compreensão e gerando diferenças em nossa projeção de realidade. Conhecer é uma inter-relação e está repleto de significados que possuímos e que foram mediados pelas nossas experiências, emoções etc. Esta construção de conhecimento é dinâmica e estabelece uma relação entre observador e objeto produzindo um conteúdo. Nela, todos possuem projeção de realidade própria determinando particulares conteúdos, os quais não são previamente conhecidos por todos os personagens.

No processo de aprendizagem é fundamental estimular a descoberta da “verdade” de modo próprio e por meio de reflexão sobre as estruturas sociopolíticas e não uma mera transferência de conhecimento, na qual o aluno engole as informações de maneira mnemônica e depois as vomita nos testes e provas. Veja bem, isto significa buscar estabelecer relações entre as dimensões do conhecimento, as diferentes leituras de mundo, a busca por descobertas próprias e se apropriar do letramento científico.

A importância deste letramento se justifica porque estamos nos movendo de uma posição que tinha o controle científico restrito às comunidades acadêmicas para uma forma muito mais ampla e compartilhada de proposição do conhecimento. A detenção do conhecimento transcendeu os muros da universidade e isto vem produzindo desafios em termos do acesso ao conhecimento e formas de novos modos de participação. Pergunto: quem está se preparando para este momento?

Pois bem, quais são as questões que nos remetem aos novos modos de compreender a ciência hoje. Desde o início do século XX profundas modificações vêm ocorrendo no modo pelo qual a produção do conhecimento está sendo compreendida pela chamada “nova” ciência, porém estes modos não estão fazendo parte das discussões acadêmicas. Esta atitude significa que nossa ação deve ser pontual e ocorrer em nível microscópico, mas sem perder de vista a produção em dimensão macroscópica. A paralaxe aqui é compreender que o Aprender deve acompanhar o movimento global da ciência e trazer para o centro da discussão da aprendizagem questões da ciência viva ao invés da ciência morta, tais como:

1) Do que é constituída a realidade que projetamos?

2) Por que nossa compreensão sobre o que realidade é modula nosso modo de pensar o conhecimento?

3) Por que o modo acumulativo de transmitir conhecimento não contribui para uma construção criativa de novos saberes?

4) Como nossa compreensão sobre o que tempo é interfere na produção de conhecimento?

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