Virtualidade e consciência humana no século XXI

A consciência humana vem sendo construída ao longo da história predominantemente por meio da materialidade, ou seja, do que é tangível e pelo fato de ser verificável por meio dos sentidos lhe é atribuída autoridade para confirmar o que é “real”. Exemplo disso é que tradicionalmente o senso comum utiliza do ditado popular “o que os olhos não veem o coração não sente”; muitas pessoas da tradição religiosa citam as palavras de São Tomé, “ver para crer”; e no campo filosófico, a discussão sobre a dicotomia entre o mundo das ideias versus o mundo concreto há séculos vem sendo objeto de discussão.

O filósofo René Descartes ratificou essa lógica separatista ao escrever a frase “penso, logo existo!” e, a partir do predomínio dessa afirmação como base para apreensão da “realidade”, a ciência vem comprovando a “veracidade” dos fenômenos estudados ao demonstrar a materialidade de suas hipóteses. A proposição do Método Cartesiano influenciou não apenas a ciência positivista, mas, também, vem influenciando e sustentando uma lógica mecanicista que se serve da observação das macroestruturas para sustentar seus argumentos.

Entretanto, muito embora essa seja a tradição científica, possivelmente, os fenômenos da Natureza não a reconhecem verdadeira e continuam a se manifestar estabelecendo unidades ao invés de dualidades. Foi a partir da proposta de uma “nova racionalidade” que a ciência passou a admitir a dimensão das microestruturas para a compreensão dos fenômenos e, a partir disso, tem sido possível considerar o “não tangível” como integrante dos fenômenos da “realidade”. É essa “nova” visão sobre “realidade” que interessa tratar neste texto.

A compreensão da interdependência entre as microestruturas e macroestruturas para constituição da “realidade” torna mais possível apreender aquilo que é manifestado pelo fenômeno, mas, infelizmente, devido à educação fragmentada que recebemos nossos sentidos não conseguem conceber a totalidade, pois caso a captassem conceberiam a incompletude, a incerteza, a impermanência como componentes daquilo que denominam “verdade”, e, por meio desse método de abordagem, modificariam o olhar. Desse modo, modificando o olhar, modifica-se a apreensão e transforma-se o pensamento; ao se refletir sobre o pensamento, desenvolve-se a consciência.

O exercício que se propõe é olhar para a “realidade” de modo que se reconheça ser ela uma projeção, mais do que algo existente de modo tangível para todos, e, assim, pensar na existência de “realidades” quase que na mesma proporção do número que existem seres humanos, para, dessa maneira, refletir sobre a limitação dos sentidos humanos e ter a possibilidade de ampliar nossa consciência para além daquilo que está organizado em forma de partícula. Neste modo de compreensão não há consciência disto ou daquilo, mas sim consciência universal da Natureza.

Considerando esse ponto de vista, o desafio parece ser conceber a consciência humana de modo unificado, apreendendo o que é tangível e “não tangível”, e reconhecer sua complexidade na descrição do “real”, aproximando-se, assim, da compreensão dos fenômenos e superando a fragmentação. Se assim for, poder-se-á caminhar em direção à ampliação do ser consciente sobre a unidade como processo mental constituído inseparavelmente pelo tangível e pelo intangível, que, especialmente, no mundo ocidental, sofreu ruptura devido ao modelo de pensamento positivista, deixando de reconhecer a subjetividade como componente da “realidade”.

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